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A oração modelo do Senhor Jesus

É irônico o contexto que proíbe vãs repetições na oração situar-se na passagem do Evangelho de Mateus em que se encontra a oração-modelo do Senhor, pois nenhuma oração tem sido mais repetida do que essa, muitas vezes sem nenhum entendimento de quem a repete.

Já no segundo século, um documento hoje chamado de Didaquê determinava que os cristãos repetissem essa oração três vezes ao dia. Isso não é necessariamente ruim, assim como não é necessariamente ruim repeti-la em uníssono nos cultos da igreja.

Mas não devemos jamais fazer isso mecanicamente e temos de nos lembrar de que o próprio Jesus concebia essa oração como um modelo: “Vocês devem orar assim” (6.9a); ele não disse: “É isso que vocês devem orar”. Essa oração tem seis petições.

É pertinente que as três primeiras digam respeito diretamente a Deus: seu nome, seu reino e sua vontade. Logo, os principais interesses e preocupações do crente são a glorificação do nome de Deus, a vinda de seu reino e a realização de sua vontade na terra, assim como no céu.

A oração-modelo do Senhor Jesus – Por D.A Carson

Só depois vêm as outras três petições, e elas têm a ver diretamente com o ser humano: nosso alimento diário, nossos pecados (“nossas dívidas”) e nossas tentações. É alentador saber que nessa oração-modelo Jesus contempla tanto as nossas necessidades físicas quanto as espirituais.

Antes de examinar essas seis petições um pouco mais detalhadamente, devemos prestar atenção à invocação inicial: “Pai nosso, que estás no céu”. Jesus não nos ensinou a orar: “Meu Pai, que estás no céu”, mas, sim, “Pai nosso”.

Os cristãos não devem orar em magnífico isolamento e não devem conceber a espiritualidade em relação ao individualismo exacerbado que tanto caracteriza a mentalidade ocidental.

O apóstolo João reflete um dos grandes temas do Novo Testamento quando diz, em 1João 5.1: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, e todo aquele que ama o Pai [i.e., Deus] também ama o que dele foi gerado [i.e., outros cristãos]”.

É claro que há lugar para orar individualmente a Deus, mas o padrão geral da nossa oração deve ser mais amplo que isso. Portanto, quando eu, como um seguidor de Cristo entre muitos, me dirijo a nosso Pai, minha preocupação é com o nosso pão de cada dia, os nossos pecados e as nossas tentações — não somente com as minhas.

Com referência à designação “Pai”, três coisas precisam ser ditas

Primeiramente, apesar de ser encontrada em escritos judaicos da época de Cristo, essa designação é extremamente rara. Um estudioso alemão bem conhecido, Joachim Jeremias, mostrou quanto os primeiros seguidores de Jesus devem ter ficado estarrecidos e assombrados com o uso que ele fez desse vocativo.

Os judeus daquela época preferiam empregar títulos elevados para se referir a Deus, como “Senhor soberano”, “Rei do universo” e outros semelhantes. Jesus o chamava de Pai (cf. Mt 11.25; 26.39,42; Mc 14.36; Lc 23.34; Jo 11.41; 12.27; 17.1,5,11,21,24,25). “Aba”, ele disse a Deus.

Essa é uma palavra aramaica usada pelas crianças para chamar seus pais. Não é tão íntimo quanto “meu paizinho”, mas é mais íntimo que “meu pai”. Isso me lembra como as crianças canadenses francofônicas costumam chamar seus pais: “papa”.

Sem dúvida, Jesus era o Filho de Deus em um sentido singular; Deus era singularmente seu Pai. O modo de Jesus se dirigir a Deus faz parte de um quadro mais amplo em que ele afirma, de muitas maneiras diferentes, ser excepcionalmente um com Deus.

Porém, o extraordinário nesse modelo de oração é que Jesus está ensinando seus discípulos a se dirigirem a Deus da mesma forma.

Essa observação nos leva a outro grande tema do Novo Testamento

É comum os autores do Novo Testamento se referirem a tornar-se um discípulo de Jesus como tornar-se um filho de Deus. Os que se arrependem de seus pecados e confiam em Jesus como aquele que pagou por esses pecados ao morrer por eles.

Que prometem fidelidade e obediência a Jesus, que confessam: “Jesus é o Senhor!” — esses são os mesmos que a Bíblia diz serem nascidos de Deus (Jo 3), filhos de Deus por adoção (Rm 8). Antes destinados para a ira (Ef 2.3), agora foram vivificados diante de Deus.

Eles desfrutam a nova relação com o próprio Deus. Embora a filiação deles em alguns aspectos seja qualitativamente diferente da filiação de Jesus, ainda assim herdarão junto com Cristo os esplendores de um novo céu e uma nova terra (Rm 8.15ss.).

Mesmo agora, Deus enviou o Espírito de seu Filho para habitar o coração deles — o Espírito que clama “Aba, Pai” (Gl 4.6). Não admira que, depois da morte e ressurreição, Jesus, vitorioso, tenha orientado Maria: “Vá a meus irmãos e diga-lhes:

‘Estou voltando para meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês’” (Jo 20.17). Com seu ministério, morte e ressurreição, Jesus produziu os meios pelos quais as pessoas podem chegar a Deus todo- poderoso e dizer com propriedade: “Pai nosso”.

Esta é, portanto, a segunda observação que precisa ser feita sobre tal designação: o modo pelo qual Deus é considerado Pai nas Escrituras normalmente não está relacionado à noção genérica de “paternidade de Deus” (“Deus é o Pai, e todos os homens são irmãos”), mas à relação especial entre Deus e os seguidores de Jesus.

É verdade, claro, que todos os seres humanos são “descendência de Deus” (At 17.29)

No sentido de que Deus criou a todos e tem soberania sobre eles como Criador e Sustentador. Contudo, não é nesse sentido que os autores do Novo Testamento em geral usam as metáforas da relação “pai-filho” relativamente a Deus e os seres humanos.

Por exemplo, em 1João 3.1, João distingue entre os “filhos de Deus” e “o mundo”. Escrevendo a crentes, ele diz: “Como é grande o amor que o Pai nos concedeu, a ponto de sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu”.

Portanto, é muito rica a relação entre Deus, o Pai celestial, e os que se tornaram seus filhos pela fé no seu Filho e obediência a ele. Existe vida, perdão, aceitação, herança, família e disciplina nesse relacionamento. Sim, até disciplina. Porém, nosso Pai perfeito e amoroso ministra essa disciplina “a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10; cf. 12.4-11).

Além disso, precisamos notar que Deus é o nosso Pai “no céu”

Essa é a terceira observação a respeito dessa designação. Em geral, os judeus da época de Jesus eram propensos a conceber Deus de uma forma tão exaltada que dificilmente conseguiam imaginar um relacionamento pessoal com ele.

Deus era tão transcendente que muitas vezes se perdia de vista a riqueza da sua personalidade. A maior parte do evangelicalismo moderno, ao contrário, costuma retratá-lo como um Deus exclusivamente pessoal e carinhoso. Não se sabe por quê, a soberania e a elevada transcendência divinas desaparecem.

Se você entrar em certas igrejas americanas, ouvirá algum corinho animado (me recuso a chamar de “música ou hino”), como “He’s a great big wonderful God” [Ele é um Deus grande, formidável e maravilhoso].

Infelizmente, não consigo deixar de imaginar um grande, formidável e maravilhoso ursinho de pelúcia. Esses “corinhos” não chegam a ser heréticos nem blasfemos. Às vezes eu gostaria de que fossem, pois assim poderiam ser prontamente condenados por um mal específico.

Eles são algo muito pior que blasfêmia ou heresia isolada. Fazem parte de um modelo de irreverência, de teologia superficial e critérios religiosos dominados pela experiência, o que aniquilou enorme e considerável parte do vigor evangélico no Ocidente.

Isso não contradiz meus comentários anteriores sobre a natureza pessoal de Deus representada pela designação “Pai nosso”.

Quando Jesus ensinou seus discípulos a orarem dessa maneira, ele estava falando com homens que já estavam convencidos da grandiosidade da transcendência de Deus, da magnificência da inefável sublimidade de Deus.

Quando eles, ainda tímidos, oraram pela primeira vez:

“Pai nosso, que estás no céu”, sem dúvida sentiram profundamente o tremendo privilégio de se aproximarem desse Deus maravilhoso de uma forma tão pessoal e íntima. Mas hoje os que perderam de vista a transcendência de Deus não conseguem mais dar o devido valor ao privilégio de chamá-lo de Pai.

Felizmente, ainda há crentes que se reúnem com reverência, solenidade, consciência e dignidade para cantar louvores como este:

Imortal, invisível, Deus sapientíssimo, em luz inacessível oculto de nossos olhos, mui bendito, mui glorioso, o Ancião de Dias, Todo-Poderoso, vitorioso, teu grande nome exaltamos.

Grandioso Pai de glória, puro Pai de luz, teus anjos te adoram, todos de olhos cobertos por um véu; todo louvor te daremos: oh, ajuda-nos a ver. É só o esplendor da luz que te oculta.

Quando esses crentes orarem então: “Pai nosso, que estás no céu”, não poderão senão calar-se e humilhar-se diante de Deus

Com essa introdução equilibrada, é significativo que a primeira petição diga respeito a esse Pai excelso: “Santificado seja o teu nome”. Na perspectiva semítica, o nome de uma pessoa é intimamente ligado ao que ela é.

Portanto, ao revelar no Antigo Testamento que tem esse ou aquele nome, Deus está usando seu nome para se revelar como ele é. Os nomes são explicativos, reveladores.

Entre os vários nomes de Deus, estão: o Altíssimo, o Todo- Poderoso, Eu Sou, e compostos deste último, que podem ser traduzidos por Eu sou Aquele que te ajuda, Eu sou Aquele que é a tua justiça, por exemplo. E, quando pensamos no caráter de Deus oculto por trás desses nomes, devemos orar: “Santificado seja o teu nome”.

“Santificar” é tornar santo ou considerar santo. O verbo é usado em 1Pedro 3.15: “Antes, santifiquem a Cristo como Senhor no coração de vocês”.

Temos de reverenciar, honrar, considerar santo e reconhecer Cristo como o Senhor santo. Semelhantemente, devemos reverenciar, honrar, considerar santo e reconhecer o nome de Deus e, portanto, o próprio Deus.

Na minha opinião, um aspecto intrigante dessa petição é que, apesar de ser uma súplica para que o nome de Deus seja santificado e, portanto, supostamente um pedido para que Deus santifique seu próprio nome, trata- se, contudo, de uma oração que, quando atendida, significa que nós vamos santificar o nome de Deus.

Em outras palavras, os seguidores de Cristo estão pedindo a seu Pai celestial que aja de tal maneira que eles e um número cada vez maior de pessoas reverenciem a Deus, glorifiquem o seu nome e o reconheçam.

Muitos usam “Deus” e “Jesus” como palavrão quando estão irritados ou aborrecidos ou em piadas. Porém, à medida que essa oração é atendida, eles não só deixarão esse hábito, mas também passarão a considerar o nome de Deus tão santo que simplesmente pensar nele será suficiente para incitar espírito de reverência e temor santo.

De certa forma, orar “santificado seja o teu nome” é orar: “Faz-me santo

Permite que eu te reverencie. Opera em mim e em outras pessoas para que reconheçamos sempre tua santidade gloriosa e insuperável”.

Mas a petição como Jesus a ensina se estrutura não tanto em relação ao que tem de acontecer conosco para a oração ser atendida, mas, sim, em relação ao próprio alvo.

O alvo mais elevado não é nós sermos santificados, mas, sim, o nome de Deus ser santificado. Isso tira o ser humano do centro da cena e dá esse lugar somente a Deus. O homem — mesmo o homem transformado — não é o centro do universo.

A principal raison-d’être do ser humano é de fato, como os teólogos disseram, glorificar a Deus e desfrutar eternamente de sua presença.

Essa breve petição tem sozinha tanto conteúdo para meditação, tantas implicações sobre como devemos pensar sobre Deus, que é suficiente para nos pôr de joelhos.

A segunda petição é tão curta quanto a primeira: “Venha o teu reino” (6.10)

Isso não pode ser um pedido para que a soberania universal de Deus seja exercida, pois ela está sempre em vigor. Refere-se ao reino salvífico de Deus, que, como vimos, em um aspecto já está presente, mas em outro ainda aguarda sua plena consumação no futuro.

Orar “venha o teu reino” é orar para que o reino salvífico de Deus se expanda mesmo agora e, mais ainda, que Deus traga o reino consumado. O reino de Deus virá em sua plenitude porque será inaugurado pela volta de Jesus.

Se os primeiros cristãos desejavam ardentemente que o poder e a autoridade de Jesus se manifestassem por meio deles no seu constante testemunho (veja At 4.28,29), estavam ainda mais ansiosos pela volta de Jesus e oravam: “Maranata” — “Vem, Senhor!” (1Co 16.22).

Eles aguardavam com expectativa “novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2Pe 3.13). O último livro da Bíblia conclui com a oração: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20).

“Venha o teu reino.”

Os cristãos não devem fazer esse pedido de maneira frívola ou descuidada. Ao longo dos séculos, os seguidores de Jesus debaixo de perseguição brutal têm feito essa oração com consciência e fervor.

Mas tenho a impressão de que os bancos confortáveis de nossas igrejas zombam de nossa sinceridade quando repetimos essa frase hoje.

Não temos nenhuma objeção à volta do Senhor, acredito, contanto que ele espere um pouco e nos deixe primeiro terminar a faculdade, ou nos deixe experimentar a vida de casado, ou nos dê tempo para termos êxito nos negócios ou na vida profissional, ou nos dê a alegria de ver nossos netos nascerem.

Será mesmo que desejamos ardentemente que o reino venha em toda a sua insuperável justiça? Ou será que preferimos patinhar num atoleiro de falsidade e injustiça? A terceira petição amplia um pouco e especifica os limites da segunda.

Depois de “venha o teu reino” vem “seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”.

Essa oração pode bem ser um pedido para que o reino de Deus venha em sua plenitude, pois a característica mais maravilhosa dessa vinda será o cumprimento perfeito da vontade do Pai.

Sem demora, rebeldia, prevaricação, agentes do mal nem aquelas misteriosas mudanças de acontecimentos pelas quais Deus opera hoje, mesmo usando a maldade dos homens (veja Gn 50.20; Is 10.5-19).

A ambiguidade linguística desse pedido permite uma aplicação mais geral

A vontade ética de Deus (se é que posso usar essa expressão para falar do desejo dele de ver a justiça praticada) só será completamente cumprida no reino consumado.

Contudo, os que agora pertencem a esse reino, como ele se manifesta atualmente entre nós, já têm a obrigação especial de cumprir essa vontade. A maior parte do texto de Mateus 5 diz exatamente isto: para entrar no reino do céu é obrigatório ter justiça incomparável (5.20).

No reino consumado, é claro que não será necessário estabelecer regras acerca de divórcio, dar a outra face, ódio, cobiça, hipocrisia e outras transgressões. No momento, entretanto, um aspecto essencial de nossa busca da ética do reino é que essa ética deve ser demonstrada em um mundo onde o mal ainda predomina.

Na consumação, não serei mais tentado a revidar se alguém me der um tapa na cara, porque não haverá mais tapa na cara; não serei mais tentado a odiar meus inimigos, porque não terei mais inimigos.

Logo, embora as exigências absolutas de justiça não sejam diminuídas nem atenuadas pela desculpa da pressão da presente era maligna, elas são concebidas levando em conta a oposição ao mal desta era.

É assim que elas apontam para a perfeição futura do reino consumado, quando a vontade de Deus será cumprida ampla, aberta e livremente, sem exceções nem restrições e sem a dolorosa necessidade de defini-la com referência à oposição ao mal.

Talvez eu possa resumir tudo isso de outra maneira. Quando Jesus diz:

“Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”, imagino que ele tenha escolhido palavras que levam em conta alguns contrastes.

Ele pode estar nos ensinando a orar para que;

  • (1) os desejos de Deus em relação à justiça sejam plenamente cumpridos agora na terra, assim como são cumpridos agora no céu;
  • (2) os desejos de Deus em relação à justiça sejam por fim cumpridos tão plenamente na terra assim como são cumpridos agora no céu — isto é, essa frase é análoga a “venha o teu reino”;
  • (3) os desejos de Deus em relação à justiça sejam finalmente cumpridos na terra da mesma maneira que são cumpridos no céu — isto é, sem referência à oposição do mal, mas pura e absolutamente.

Precisamos entender que, se estamos orando para que a vontade de Deus seja feita na terra, estamos assumindo duas importantes responsabilidades. Em primeiro lugar, estamos nos comprometendo a aprender tudo o que pudermos sobre a vontade dele.

Isso significa estudar as Escrituras com constância e humildade

Uma coisa que me dói é ouvir cristãos insistirem na autoridade e infalibilidade das Escrituras quando esses mesmos crentes não se empenham em estudar as Escrituras com zelo. Quais são os temas de Zacarias e Gálatas?

O que aprendemos acerca da vontade de Deus no texto de Êxodo e no de Efésios? Em que o retrato de Jesus traçado por Mateus e o traçado por João diferem e em que se complementam um ao outro?

Esta semana, quando estudamos a vontade de Deus, o que aprendemos que provocou aperfeiçoamento e melhora em nossa vida?

Isso nos leva à segunda responsabilidade. Se o anseio profundo do meu coração é que a vontade de Deus seja feita, então, ao fazer essa oração, também estou prometendo que, com a ajuda e a graça de Deus, vou fazer a vontade dele até onde eu a conheço!

Essas são as três petições da oração-modelo do Senhor. Os principais interesses e prazeres do seguidor de Jesus são a glória de Deus, o reino de Deus e a vontade de Deus. Só depois disso o cristão pensa em suas necessidades pessoais e nas dos outros.

A primeira petição desse grupo é:

“O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (6.11). A palavra traduzida por “de cada dia” ocorre muito raramente em grego. Na verdade, ela é encontrada com cem por cento de certeza somente nessa oração, mas muito provavelmente aparece também em um dos papiros, no qual a palavra está rasurada mais ou menos no meio.

Parece tratar-se de um adjetivo que significa “do dia que está vindo”. Se pedimos pela manhã o nosso alimento “[d]o dia que está vindo”, estamos querendo dizer “o alimento de hoje”; se pedimos à noite, estamos falando do alimento de amanhã.

De qualquer modo, o propósito é o mesmo, que infelizmente se perdeu nas complicadas estruturas da sociedade ocidental moderna. Na época de Jesus, os trabalhadores normalmente eram pagos pelo trabalho que haviam realizado no mesmo dia, e o que recebiam era tão ínfimo que era quase impossível poupar um pouco.

Portanto, o pagamento do dia comprava a comida daquele dia. Além disso, a sociedade era basicamente agrária: qualquer problema na colheita podia significar um grande desastre.

Nesse tipo de sociedade, orar “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” não era retórica vazia. Vivendo de forma relativamente precária, os seguidores de Jesus deviam aprender a confiar que seu Pai celestial lhes supriria as necessidades físicas.

Contudo, um princípio ainda maior está em jogo aqui

Tiago, o meio-irmão de Jesus, lembra-nos: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes celestes, o qual não muda como sombras inconstantes” (Tg 1.17).

Paulo é ainda mais contundente: “Pois quem o faz diferente de qualquer outro? O que você tem que não tenha recebido? E, se você recebeu, por que se orgulha, como se não o tivesse recebido?” (1Co 4.7)

Isto é, como se o tivesse conquistado por seus próprios méritos ou cultivado sozinho. Em outras palavras, as Escrituras ensinam que Deus é a fonte suprema de todo bem, seja comida, roupa, trabalho, lazer, força, inteligência, amizade, seja qualquer outra coisa.

Além do mais, ele não nos deve essas coisas. Uma vez que todos nós, em um ou outro momento da vida, trilhamos caminhos indignos, fizemos nossa própria vontade e mostramos os punhos cerrados para Deus, afirmando nossa independência, ele não seria injusto se não nos concedesse essas bênçãos.

Nossa própria ingratidão é um insulto à Divindade; esta geração ingrata é uma afronta a ele. Tratamos suas dádivas como algo corriqueiro e garantido e, quando elas começam a escassear, reclamamos e questionamos a própria existência desse Deus benigno.

A vida em boa parte da sociedade ocidental não é precária como era no primeiro século

Recebemos muito mais dádivas. Infelizmente, porém, essa riqueza contribuiu para nossa ingratidão, para nossa falência espiritual. Enquanto escrevo estas linhas, chegam notícias de uma seca na Europa, na Austrália e em outras partes do mundo.

Não estou aqui dizendo que existe mais maldade na Europa do que no resto do mundo, mas me pergunto se Deus não está começando a advertir o Ocidente usando a linguagem terrível do juízo.

Até aprendermos algumas lições de arrependimento, gratidão, pobreza de espírito e, talvez mais do que qualquer outra coisa, de consciência da nossa dependência dele.

Se tempos difíceis nos sobrevierem, o seguidor de Jesus é quem encontrará refúgio nesta petição: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (Mt 6.11).

Não se trata de uma simples questão de orar assim para aprendermos a depender de Deus, embora em parte seja isso. A verdade é que os registros da história cristã estão repletos de testemunhos de que Deus é capaz de atender a esse pedido com a maior fidelidade possível.

A segunda petição encontra-se no versículo 12:

“Perdoa-nos as nossas dívidas, como também perdoamos aos nossos devedores”. Após terminar sua oração-modelo, Jesus prossegue, ampliando a questão, pois nos versículos 14 e 15 acrescenta:

“Porque, se vocês perdoarem aos homens as ofensas contra vocês, o Pai celestial também perdoará vocês. Se, porém, vocês não perdoarem aos homens as ofensas deles, tampouco o seu Pai lhes perdoará os pecados”.

O pecado é figurado na oração como dívida. É uma dívida que precisa ser paga. Portanto, se alguém tem tal dívida para conosco, e nós não o libertamos, perdoando-lhe a dívida, o Pai também não nos perdoará as dívidas que temos com ele.

Na verdade, em aramaico, a língua em que provavelmente Jesus pregou esse sermão, não é incomum referir-se ao pecado como dívida.

Será que Jesus está nos falando de algum tipo de esquema toma lá dá cá? Eu perdoo o João, e então o Senhor me perdoa (na verdade, para que o Senhor me perdoe)?

A tradução do versículo 12 na NIV reforça essa interpretação, embora o original grego possa simplesmente significar “como nós, com isso, perdoamos [presente] os nossos devedores”, e não necessariamente “assim como nós também perdoamos [pretérito] os nossos devedores”.

Mas, então, o que significam as condições tão explícitas dos versículos 14 e 15?

A parábola que Jesus conta em Mateus 18.23-35 lança um pouco de luz sobre essa passagem:

Por isso, o reino do céu é comparado a um rei que quis acertar contas com seus servos. Quando começou o acerto, trouxeram a sua presença um homem que lhe devia dez mil talentos.

Como esse homem não tinha condições de pagar, o senhor ordenou que ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens fossem vendidos para saldar a dívida. O servo se pôs de joelhos diante dele e rogou “Tenha paciência comigo, que lhe pagarei tudo”.

O senhor desse servo teve compaixão dele, cancelou a dívida e o deixou ir. Porém, quando saiu, esse servo encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários. Ele agarrou o companheiro e começou a sufocá-lo, exigindo:

“Pague o que você me deve”. O seu conservo caiu de joelhos e lhe suplicou: “Tenha paciência comigo, que lhe pagarei”. Mas ele não quis. Antes, saiu e mandou lançarem o companheiro na prisão até que esse pagasse a dívida.

Quando os outros servos viram o que tinha acontecido, ficaram muito tristes e foram contar ao senhor deles tudo o que acontecera. Então o senhor chamou aquele primeiro servo à sua presença e disse-lhe: “Servo mau, eu cancelei toda aquela sua dívida porque você me suplicou.

Você também não devia ter tido compaixão do seu companheiro assim como tive de você?”. Indignado, o senhor o entregou aos carcereiros até que ele pagasse tudo o que devia. Assim também o meu Pai celestial tratará cada um de vocês se não perdoarem de coração ao seu irmão.

Parece que o ponto principal da parábola não é tanto a sequência temporal (X precisa perdoar Y antes que Z perdoe X), mas, sim, a atitude. Não há perdão para quem não perdoa. E não poderia ser de outra forma. O espírito incapaz de perdoar dá forte testemunho de que nunca se arrependeu.

É da essência da vida cristã a abnegação

Todo aquele que considera a si ou à sua própria vida fundamental para uma existência significativa perde tudo; todo aquele que toma sua cruz, segue a Cristo e perde sua vida a encontra de fato. Nesse sentido, a famosa oração atribuída a Francisco de Assis analisa as categorias em que esse pedido da oração-modelo do Senhor deve ser entendida:

Senhor, faze de mim um instrumento de tua paz. Onde há ódio, que eu leve o amor. Onde há ofensa, que eu leve o perdão. Onde há dúvida, que eu leve a fé. Onde há desespero, que eu leve a esperança. Onde há trevas, que eu leve a luz. Onde há tristeza, que eu leve a alegria.

Ó Mestre Divino, faze que eu procure mais consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna.

A última petição do Pai-Nosso é:

“E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal” (6.13, ARC). À primeira vista, esse é um pedido muito estranho. Por que devemos pedir a Deus que não nos induza à tentação? Não deveríamos ter isso como certo e garantido?

Pedir a Deus que não sejamos tentados seria mais compreensível, mas pedir que ele não nos induza à tentação é difícil de entender.

Muito já se escreveu acerca dessa petição, mas suspeito que a verdadeira explicação dessa frase intrigante seja mais simples do que a maioria das soluções propostas. Acredito que se trate de uma lítotes, uma figura de linguagem que expressa uma coisa negando o seu contrário.

Por exemplo, “não poucos” significa “muitos”; ao negar “poucos”, produzimos uma lítotes. Em João 6.37, Jesus afirma: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de modo algum o lançarei fora”.

Muitos acreditam que a última parte do versículo seja uma lítotes, cujo significado é: “Eu certamente receberei todo aquele que vem a mim”. De fato, é uma lítotes até mais forte que isso. Como os versículos seguintes mostram, ela significa:

“Eu certamente manterei comigo todo aquele que vem a mim”

Assim, ao negar “lançar fora”, uma expressão vigorosa e um tanto irônica, gera-se “manter comigo”.

Na minha opinião, o “não nos induzas à tentação” é uma lítotes semelhante às apresentadas nesses exemplos. A locução “à tentação” é negada: Induza-nos não à tentação, mas para longe dela, para a justiça, para situações em que, longe de sermos tentados, seremos protegidos e, portanto, mantidos justos.

Como a segunda parte dessa petição expressa, assim seremos libertos do mal.

Essa petição é um poderoso lembrete de que, assim como devemos depender conscientemente de Deus para nosso sustento físico, também devemos perceber que somos dependentes dele para ter triunfo moral e vitória espiritual.

Aliás, falhar nesse ponto é já ter caído em tentação, pois isso faz parte daquela horrível luta pela independência que se recusa a reconhecer nossa posição de criaturas diante de Deus.

À medida que o cristão progride na santidade de vida, ele percebe sua fraqueza moral inata e se alegra de saber que qualquer virtude que tem brota como fruto do Espírito.

Cada vez mais, ele reconhece as sutilezas enganadoras de seu próprio coração e as astúcias destruidoras do Maligno, e clama com fervor ao seu Pai celestial:

“Não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal”

Qual foi a última vez que você fez essa oração? Será que deixar de lado essas orações não é sinal de desleixo espiritual e insensibilidade aos aspectos espirituais da existência humana?

O fato de a súplica para evitar a tentação estar situada entre o pedido referente ao perdão (6.12) e seu esclarecimento posterior (6.14,15) talvez dê a entender que a principal tentação em vista nessa passagem é a da amargura.

A tentação de manter um verniz de religião verdadeira mesmo quando os pensamentos secretos estão arrebentando de corrupção, como uvas fermentando. Isso também se ajusta ao tema predominante da passagem (6.1- 18), que é a descrição e a destruição da hipocrisia religiosa.

A doxologia impressa em algumas versões (“pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!”) ao que parece foi acrescentada no segundo século, não antes disso.

Essa observação não questiona que o reino, o poder e a glória de fato pertencem a Deus eternamente; muitas outras passagens dizem coisa semelhante. Contudo, não há comprovação de que Jesus tenha ensinado esse trecho como parte de sua oração-modelo.

Temos muito que aprender a respeito de oração; a maioria de nós ainda é pouco mais que um aprendiz. Um dos mais proveitosos estudos das Escrituras é a análise das orações registradas em suas páginas.

Depois, é claro, o estudante precisa praticar o que aprendeu. Porém, por mais tesouros que venha a descobrir, ele jamais encontrará uma oração mais abrangente, mais precisa, mais exemplar que a oração-modelo do Senhor.

Bem-aventurado o seguidor de Jesus que pode cantar com sinceridade, sem se sentir envergonhado nem intimidado (apesar da estranheza de algumas expressões):

Doce hora de oração! Doce hora de oração!

Que me chama deste mundo de aflições para levar ao trono de meu Pai todos os meus anseios e petições. Nos momentos tristes de pesar, minh’alma pode descansar, e se livrar do laço do tentador, pela tua retribuição, bendita hora de oração!

Doce hora de oração! Doce hora de oração! Tuas asas levam minha petição àquele cuja verdade e fidelidade fazem minh’alma esperançosa louvar.

E, como ele me convida a sua face buscar, crer em sua palavra e em sua graça confiar, sobre ele ponho todo o meu cuidado, e espero por ti, doce hora de oração.

Para que possa aprender mais sobre este tema, leia nosso próximo artigo “O Sermão Monte ao Alcance de Todos”, recomendo que você estude o livro de Carson “O Sermão do Monte” que deu origem a este artigo.

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