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Reconstruindo o Coração (A Dádiva da Culpa)

Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. Gênesis 3.7-8.

Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Tiago 2.10. O grande problema que acossa o homem, a complicação sumamente exasperante que o deixa incomodado em toda a sua existência e labuta é a busca de um lugar para depositar sua culpa. Desde o início, o homem foi acometido pelo sentimento de culpa; todavia, muito antes de virem os sentimentos, estava a realidade objetiva: o homem pecou contra Deus.

Quando Adão e Eva escolheram quebrar a aliança com Deus, fizeram-no por causa da tentação da autonomia:conhecer e determinar o bem e o mal por si mesmos (Gn 3.5). Uma vez que os desejos do coração são postos em movimento, a mente passa a raciocinar para justificar-se.

O que o coração anseia, a mente proclama que é justo e bom. O que as emoções almejam, a vontade vê e faz acontecer. Este ciclo de autodeterminação trouxe dano à alma do homem e destruição à ordem criada. Como Gênesis 3 claramente articula, todo o nosso ser foi maculado, quebrado e contaminado pelo pecado. Assim como a mente, nosso estado emocional é afetado pelo pecado também.

A culpa

Um subproduto desta apostasia pactual e autodestruição é a culpa: os olhos de Adão e Eva se abriram, e souberam que estavam nus e sentiram culpa e vergonha, o que os levou a esconder-se de Deus. A culpa nos faz fugir. A culpa, então, está ligada à lei de Deus porque, quando há uma transgressão da aliança de Deus, a culpa é o resultado necessário.

O que é culpa?

Talvez uma definição funcional de culpa seja válida. A culpa é o estado pactual de transgressão da lei de Deus que dá origem a sentimentos de insegurança e condenação devido ao abandono da responsabilidade e obediência a Deus. Observe como Tiago 2.10 estrutura isso: quando quebramos uma lei, somos culpados de quebrar todas elas

Uma violação representa uma violação completa. Romanos 3.18 também diz o mesmo: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus”.

Como o pecado, por definição, é a transgressão da lei de Deus (1Jo 3.4), e não a transgressão dos sentimentos ou padrões arbitrários estabelecidos pelos homens, podemos concluir que a culpa, que vem da transgressão, é também tão objetiva, real e definida como a própria lei.

Junto com as leis de Deus, estão as consequências da lei de Deus, e culpa e vergonha estão no primeiro plano. Em suma: a culpa pressupõe responsabilidade, e responsabilidade pressupõe objetividade. O que Deus tenciona é que o pecado tenha repercussões em tempo real.

Por causa do pecado, nossa boca está fechada (o que podemos dizer?) e somos culpados.

Podemos murmurar quanto a isso de tempos em tempos, mas a murmuração não remove a culpa. Também podemos culpar o ambiente, como Adão e Eva, mas nosso ambiente não nos faz pecar nem a troca de acusações remove a culpa. Em outras palavras, “Assim diz o Senhor” vem muito antes do que você pensa ou sente.

Devido à natureza abrangente da vida na palavra de Deus, Deus considerou justo garantir que nossa rebelião receberá a devida punição. E o modo poderoso que Deus escolheu para fazer isso é pela administração da culpa àqueles que violaram sua santidade. A culpa significa que Deus, por meio do instrumento de sua palavra-lei, toca em seu ombro e diz: “Já chega”.

É uma rédea para nos impedir de seguir impetuosamente no pecado e na devassidão. A natureza abrangente da culpa significa que todo o nosso ser está em risco de instabilidade emocional. Culpa objetiva resulta em sentimentos subjetivos de culpa. Uma violação pactual real resulta em volatilidade emocional. É um dom de Deus. A culpa existe é para afastar-nos dela – isso é tudo.

A verdadeira culpa, em oposição à falsa culpa, é uma característica de autocorreção da graça de Deus. A culpa é uma graça cujas intenções são puras. A culpa foi projetada para ajudar-nos a afastar-nos dela. Ora, o homem caído é um homem marcado pela culpa, e sempre haverá o desejo de encontrar formas de lidar com este enigma. O homem buscará em toda parte um lugar para esconder a culpa. Alguns escolherão ignorar a culpa e edificarão sobre a autocondenação.

Outros, como Freud, divorciarão culpa e pecado e, ao contrário, anunciarão ao mundo esta agora é um problema apenas biológico. A terceira e única opção verdadeira é correr para Cristo, mas agora melhorando a nós mesmos. melhorando Sigmund Freud (1856-1939) acreditava no poder supremo da autoanálise e da psicanálise.

Ao deslocar a culpa das garras do pecado e, por consequência necessária, da teologia

Freud foi capaz de tornar a culpa uma condição biológica e uma categoria a ser manipulada. Se a culpa pode estar divorciada da aliança, não há, então, sanções em que o homem incorra. A responsabilidade diante de Deus é afrouxada e encontra uma justificativa.

Como resultado desta manobra, a culpa se torna um impulso do id (o que chamamos de “carne” pecaminosa) a ser controlado pelo ego (a mente) e pelo superego (a consciência).

A teologia cristã lida com a carne pecaminosa do homem ao renová-lo em Cristo – uma reversão da maldição adâmica do pecado – com a intenção de restaurar o homem todo, um processo de restauração pactual e de santificação. Freud, que rejeita pressupostos religiosos, chamou-o de id, ego e superego, e isso era simplesmente o homem tentando controlar seus impulsos e desejos.

Ao abraçar a natureza biológica e antropológica do pecado, Freud pressupunha que a culpa não era nada senão uma reação química a ser domada. Entretanto, como é feito à imagem de Deus, o homem é responsável diante de Deus: é inequivocamente responsável e culpável.

No entanto, o homem em seus pecados não quer subordinar-se a Deus e absolutiza sua missão:

  • Abre mão da culpa e de todos os seus entrelaçamentos, não importa o custo.
  • A revolução sexual de nossos dias?
  • A cultura da morte?
  • A insistência na autonomia corporal?

Tudo isso é uma tentativa do homem de livrar-se da culpa e de sua responsabilidade diante de Deus. A culpa não pode ser relegada apenas à mente ou apenas à biologia. Não pode ser reduzida a meros construtos e estigmas sociais.

A culpa é a teologia aplicada à totalidade do homem.

Isso quer dizer que a culpa não diz respeito a nossos sentimentos. Ela não se importa com seu padrão de verdade. A culpa vem de Deus por meio da lei de Deus e é inteiramente indiferente ao que você pode pensar ou sentir em suas tentativas de livrar-se dela.

Não é biológica, é pactual. Se o problema é meramente externo, então alguém também há de ser culpado. Se é meramente interno, então devemos fugir e seguir os gregos. Mas a verdade é que é ambos. Um homem que toma um tiro sente dor, sem dúvidas.

Mas, antes que a dor, há uma realidade objetiva: ele foi atingido por alguém. Sentimentos de culpa fluem de sua culpa diante de Deus, mas, ainda assim, são um rio assolado pela culpa.

Se é possível para a mente ser maculada pelo pecado a ponto de cair em raciocínios falaciosos, não se seguiria que nossas emoções, semelhantemente maculadas pelo pecado, possam cair em sentimentos falaciosos?

Evidentemente. Uma das maneiras pelas quais tentamos controlar a culpa e livrar-nos dela é fazendo concessões a falsas culpas. Culpa inapropriada pode ser o problema mais debilitante que cristãos não podem enfrentar. Sentimo-nos culpados de coisas que devíamos, de coisas que são legítimas, e então não sentimos culpa de coisas que deveríamos, coisas ilegítimas.

E isso por causa de duas valas: de um lado, temos a licenciosidade; do outro, o farisaísmo. A razão por que caímos nessas valas é que não temos certeza de onde encontrar a estrada, e isso resulta de nossas janelas espirituais estarem nevoentas. Quando abrimos mão de nossa culpa pela falsa culpa, somos motivados por essas duas valas mortais.

Às vezes, queremos ser livres em áreas em que não temos permissão para ser livres

Outras vezes, queremos ser mantidos cativos em caminhos em que não temos permissão de manter-nos cativos. A semelhança subjacente dessas duas valas na estrada da culpa inadequada é o problema da objetividade: simples- mente não queremos compreender a lei de Deus.

A verdadeira culpa nos leva ao evangelho de perdão e, então, à lei, como uma medida corretiva. A falsa culpa tropeça na escuridão tentando controlar impulsos por conta própria. Talvez você seja movido pela culpa em sua tomada de decisão e nos relacionamentos, porque quer deixar todos felizes. Esta falsa culpa leva-o a dizer “sim” a tudo e “não” nada.

Você quer que as pessoas gostem de você, pensem bem a seu respeito, então você está disposto a fazer concessões no que realmente pensa a fim de conquistar o apoio de alguém. Você é o que a Bíblia chama de “homem de ânimo dobre” (Tiago 1.8; cf. Provérbios 23.7; 26.20). Esta pessoa é instável porque deixou a lei de Deus em favor de seu próprio padrão tolo e mutante.

Com uma pessoa, ela diz isto, com outra, diz alguma outra coisa. Esquiva-se da culpa, em vez de enfrentá-la à luz de seu relacionamento com Deus. Ou talvez você esteja num lugar emocionalmente instável neste exato momento, e por isso trava e tenta pensar num modo de livrar-se do sentimento de culpa.

Você pode estar sinceramente sofrendo de depressão por dezenas de razões diferentes

Mas, em vez de alinhar-se com a lei de Deus, você ativamente se afasta a fim de abafar a dor. Você também pode estar tentando livrar-se da culpa. Ambas as pessoas estão abrindo mão de sua culpa e ambas o fazem de maneiras diferentes. Em vez de lidar com nós mesmos e com os outros à luz da lei de Deus, gostamos de criar nossos próprios padrões e expectativas, e então impô-los aos outros.

Deixe-me explicar

A falsa culpa é uma tentação porque o homem natural não quer conformar-se com a realidade de ser culpável diante de Deus. É mais fácil sentir culpa pelas coisas erradas, porque as coisas erradas são criadas do nada. Um homem pode sentir-se absolutamente arrasado pelas baleias caçadas na África do Sul e, no entanto, estar inteiramente bem com o aborto e com o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

A verdadeira culpa pressupõe verdadeira retidão e verdadeira justiça; a falsa culpa pressupõe falsa retidão e falsa justiça. A falsa culpa é muito mais preferível, porque a falsa retidão e os falsos padrões nela contidos são muito mais controláveis por nós mesmos – – eles fazem o que nós queremos que façam

Se quer saber a que Deus você está servindo, rastreie sua culpa até o padrão de retidão a que você alega aderir. Sempre há um deus do sistema. Sempre. A falsa culpa é o que a culpa verdadeira usa para fazê-lo voltar para Deus. O fardo da falsa culpa é muito mais fácil de lidar porque o ídolo é muito mais leniente que o Altíssimo.

Lembre-se do que já abordamos em Romanos 3.19. O motivo pelo qual Deus fecha a boca de todos, tornando-os culpados diante dele, é que Deus pretende salvar o mundo. Deus não salva não pecadores: Jesus veio para os doentes, não para os sãos (Marcos 2.17). Deus está interessado em remover a nossa culpa, livrar-nos da vergonha e fazer tudo isso com base na obra de Jesus Cristo. Deus quer que seus culpados escolham livrar-se deste fardo.

Mas o único modo de sair do estado pactual de culpa é por meio da expiação pactual, e isso nós simplesmente não podemos fazer por nós mesmos. Precisamos de justificação. Precisamos da declaração “absolvido” e da outra declaração maravilhosa que vem com ela: “justo”. Ou corremos para a expiação de Cristo a fim de sermos libertos da verdadeira culpa, ou tentamos livrar-nos da culpa de outros modos.

Um caminho leva à vida; o outro, à morte (veja Pv 28.1, 17).

Mas temos um problema imenso: o Senhor leva, sim, em conta as nossas transgressões. Davi disse que o homem cujas transgressões são perdoadas e cujo pecado é coberto (Salmo 32.1).

  • Mas como um homem pode ser perdoado quando é culpado?
  • E como Deus pode ser ao mesmo tempo justo e justificador?
  • Se Deus justifica o culpado, isso não o torna um juiz injusto, deixando-nos sem punição?
  • Se Deus nos pune, como nossa culpa pode ser anulada?
  • Desse modo, ele já não seria o tipo de Deus que pode justificar.

A resposta a este grande problema é a cruz de Jesus Cristo.

Já demonstramos que nossa culpa não pode ser aplacada por alterações biológicas. O pensamento freudiano é inútil. Precisamos de algo mais. Precisamos de alguém mais. Só se pode tratar do pecado pela confissão, e a confissão – o fundamento de nossa fé atrelada ao perdão de Cristo, é uma garantia pactual da parte de Deus. Eis o que quero dizer:

Só temos duas opções:

1) Podemos tentar lavar-nos a nós mesmos, mas o sabão não remove as máculas da iniquidade (Jeremias 2.22).
2) Podemos deixar que o sangue de Cristo nos lave e nos salve de nossa culpa.

A opção dois é o único modo verdadeiro de realizar isso. Quando confessamos que Jesus é o Senhor e cremos no coração que Deus o levantou dos mortos, nós, como cria- turas pensantes e sencientes, somos trazidos à restauração pactual. Em Cristo, somos feitos inteiros; somos declarados “justos” ” e “inocentes”.

A justificação nos liberta do pecado e de suas consequências mortais de culpa e vergonha. Mas o evangelho não afrouxa as cadeias da culpa, ele as destrói por inteiro. Você é verdadeiramente livre. Você já não precisa jogar o jogo da culpa. Deus é justo e justificador, e você está livre (Rm 3.26; 8.1).

O descrente paralisado pela culpa só pode tentar debater- -se, arrastando seus grilhões e fingindo que não existem. Mas, em Cristo, você não tem os grilhões, porque f E mesmo quando esses grilhões se rompem, bem real de criar outras cadeias foram destruídos. há uma tentação – as cadeias da falsa culpa.

Para o descrente, a culpa corrói o ser até que ele se arre- penda ou pereça

Para o cristão, entretanto, a culpa é algo bom, porque a culpa quer dizer que a lei está em ação em nossa vida, e que nossa fé e confiança na suficiência de Cristo também estão em funcionamento. Quando não mantemos o evangelho no primeiro plano de nosso pensamento e sentimento, começamos a encontrar modos de livrar-nos de nossa culpa.

Em vez de lidar com Cristo, preferimos encolher-nos em nossa própria autopiedade, deixando de crer que Cristo nos ama. Em vez de ser consumidos com o amor de Deus em Cristo, preferimos murmurar e reclamar que as coisas não estão “a nosso gosto”, de modo que tomamos a nossa culpa e a lançamos sobre os outros, chantageando-os para que nos aliviem.

Conclusão

Se não lidamos com Cristo e a abolição da culpa e da vergonha em nossa vida, seremos tentados a arriscar e fabricar um ídolo para aliviar a nossa consciência.

Em vez de fazer isso, vá a Cristo. Da próxima vez que se sentir culpado, verifique se há culpa verdadeira ou falsa. De todo modo, vá a Cristo. Vá à cruz onde você morreu com ele. Vá ao sepulcro onde você foi sepultado com ele. Vá ao trono onde você foi levantado com ele. Vá até ele.

Entregue-lhe a sua perdoar os culpa. Entregue-lhe suas tentações. Entregue-lhe seus peca- dos. E lembre-se de que ele é fiel e justo para nos pecados e purificar-nos de toda injustiça (1 João 1.19). Cristo levou sua culpa e vergonha; não ouse tentar pegá-las de volta.

J.R. Santos

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